Corrida de revezamento



Tudo na vida é aprendizado. Cada dia por mais insignificante ou monótono, ali, embutido, numa curva do segundo, ou na esquina do tempo, existe algo a ser aprendido ou motivo de reflexão. Temos exemplos e aprendizado, na família, no trabalho, na natureza e claro, também no esporte. Seja na vitória ou na derrota, basta estar atento. Cada modalidade tem a sua peculiaridade e ensinamento. Gosto de analisar o atletismo, onde o esforço concentrado do atleta e sua motivação fazem a diferença entre vencer, estar no pódio ou “simplesmente” participar da prova. A busca incessante para diminuir nem que seja um milésimo de segundo. Uma nova técnica, um novo equipamento, uma maneira nova de treinar. Na corrida existem diversas modalidades que me fazem refletir. Os maratonistas que não estão preocupados tanto com a velocidade, mas sim, a resistência, afinal não é tarefa fácil percorrer os 42192 metros. Entender que o primeiro passo tem a mesma importância que o milésimo ou o último quando se rompe a linha de chegada. Tem que ter fôlego, coragem, persistência. Existem as corridas de velocidade, 50, 100, 200, 800, 1500, 5000 metros, onde a técnica é importante, a análise do vento, o trabalho muscular para atingir a velocidade e o fôlego. Fenômeno como Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, incrível a sua técnica e competência. Mas de todas as corridas, a que me atrai e sinto que é a somatória de todas essas, é a corrida de revezamento. O maior aprendizado está em não apenas ser o mais veloz e persistente, não vence quem rompe a linha de chegada, mas sim saber passar o bastão e a soma de todos os resultados faz a diferença entre estar no pódio ou “apenas” competir. Numa corrida de revezamento não importa se você é o primeiro a largar ou está na reta final esperando receber o bastão do companheiro para dar a explosão final. Portanto, levando esse conhecimento para o nosso dia a dia, fico profundamente contrariado quando percebo que as pessoas possuem memória curta, não lembram daquilo que foi feito no passado para que elas possam estar nesse momento à frente, colhendo os “louros da fama”. Que para se sentir no alto do pódio, no topo da montanha ou no alto da pirâmide, foi necessário construir o alicerce, as primeiras fiadas de tijolos. É muito comum esse sintoma da amnésia acontecer nas famílias. Filhos que nunca valorizaram o laço familiar com seus pais, estarem muito mais preocupados em amar as coisas do que as pessoas. Netos que não foram educados a reforçar esse laço, nunca vão participar dessa maravilhosa corrida de revezamento. Vão se dedicar a corrida da velocidade, procurando o resultado individual e instantâneo. Nem precisa citar os bisnetos ou os demais descendentes. Portanto, volto a frisar; nada mais belo do que a corrida de revezamento. Não me refiro aos 400 metros, mas a corrida lenta e diária da vida, onde o valor do primeiro passo dos avós, dos pais, dos filhos e dos sucessores são iguais. Onde num dado momento quem está com mais fôlego ou resistência, faz a diferença, sem cobrar nada daquele companheiro que por um momento está contundido ou passando por um mau momento. Nessa corrida, não existem vencedores individuais. Pra ser franco, acho que nem existe vencedor ou vencido. Nessa corrida diária da vida o que importa mesmo é competir. Estar presente, dar a largada e se possível, chegar à linha final de cabeça erguida e consciência tranquila. Ou como diz a música do Walter Franco: Tudo é uma questão de manter. A mente quieta, a espinha ereta. E o coração tranqüilo.

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