Lugar de livro não é na estante

 Ao iniciar esse texto, lembrei dos anos oitenta quando o Leo Jaime cantava a música, “Os livros da estante, já não tem mais tanta importância, do muito que eu li, do pouco que sei, nada me resta…” acho o livro a melhor invenção do mundo, é imprescindível. A meu ver só deixa de ser quando está justamente estático na estante. Não sou parâmetro pra ninguém, cada um é livre e faz o que bem entende, mas para um país pobre, que segundo a pesquisa apresentada no Jornal Nacional, apenas 25% dos brasileiros são plenamente alfabetizados é complicado deixar o livro parado na estante. Ele deve fluir e passar de mão em mão. Ou melhor, de cérebro em cérebro. Livro como objeto de decoração na estante, não é sinal de elegância, mas sim, de atraso. Coloque uma coruja, vaso, porta-retrato, flor, mas não o livro. Terminou de ler, gostou? Leia novamente, se não, passe pra alguém que acredite que vá gostar. Sem apego, sem essa de que comprei o livro e gastei uma grana com ele. Ora bolas! Você já o consumiu, o valor já foi bem gasto, ou melhor, investido. Dessa forma, deixe que alguém possa ter acesso também. Havendo esse ciclo de desapego, esse ciclo virtuoso, você também terá a chance de ter um livro “grátis” em mãos.

Na Europa existem muitos leitores em transporte coletivos. Quando terminam de ler a obra, é comum vê-los deixando o livro no próprio banco do trem ou do Metro, para que alguém possa também ter acesso. Vi isso num trem que ia de Milão a Veneza. A cena me inspirou a começar o meu novo romance “La Sereníssima” justamente tendo esse trem como cenário. Em Madrid, Milão, Lisboa entre outras cidades que passei, eu vi que jornais são deixados nos porta bagagens, nos bancos das praças, juntos com outros livros para que a informação possa transitar livremente. Recentemente aqui no Brasil teve uma campanha bacana, onde estimulava esse hábito, mas pelo visto, os livros acabaram sendo recolhidos e vendidos por peso como papel reciclado. Já que estamos num país pobre e para que o destino do livro não seja a “literal reciclagem”, faça o seguinte meu querido amigo, passe o seu livro para alguém que você sabe que gosta de ler, ou então, estimule a leitura, incentive um potencial leitor. Ele em breve será seu parceiro de leitura, quem sabe em pouco tempo, será ele que estará retribuindo o gesto com um livro para você ler. Aconteceu isso comigo. Aliás, a função do escritor é semear novos leitores. Os exemplares que ganho das editoras, ou os livros que compro, ou ainda as sobras das minhas edições, depois de ter alcançado o ponto de equilíbrio, eu vou presenteando os meus clientes, amigos e principalmente as crianças. Os livros infantis de minhas filhas foram todos doados. Ao presentear o livro, enfatizo o leitor a importância de fazer o mesmo gesto.

Entendo que existe apego a livros históricos, aqueles que ganhamos de um ente querido, do namorado(a), do professor(a), aqueles autografados. Tudo bem, então empreste para pessoas do seu círculo mais próximo, pois certamente poderá tê-lo de volta. Mas não cometa o sacrilégio de colocá-lo e imortalizá-lo na estante, numa prateleira, ou num armário. Afinal livro na estante é igual a umbigo. Ele está lá, você o vê, te serviu uma vez, mas depois só serve pra acumular sujeira. Não serve pra nada! Livro tem estar nas mãos das pessoas.

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