Pode parecer estranho ter uma perereca como animal de estimação. Mas há quase dois anos adotamos a Madalena, uma simpática anfíbia, que vivia escondida em nossa sala, na parede, atrás do quadro de Jesus, logo acima do lago das carpas. Na verdade ela que nos adotou. Como vivia acolhida e protegida pelo Mestre, batizamos a pererequinha de Madalena. Passamos a cuidá-la e dedicar quase que a mesma atenção que damos a Nina, nossa cachorra vira-lata que também nos adotou. Mas a personagem principal dessa crônica é a Madá. Esse era o jeito carinhoso que a chamávamos. Os amigos mais próximos, ao nos visitar, logo iam olhar se a Madá estava atrás do quadro. Todos conheciam a Madá e ficavam encantados com a presença dela e por ter se acostumado com o ambiente. À noite, todo cuidado era pouco, fechar a porta, só se antes, tivesse a certeza que a Madá não estivesse no vão. Algumas teias de aranha perto do lago eram deixadas de propósito para servirem de alimento para a Madá, e ainda assim, ela fazia a limpa nas paredes, caçando os seus insetos preferidos. Mas a idade chega para todos, e tinha que chegar para a Madá. Não sei ainda ao certo quanto tempo vivem as pererecas, os mais engraçadinhos, dirão que em torno de 12 anos, mas estou aqui falando de um anfíbio real. Alguns meses atrás a Madá caiu da parede, e quebrou a perninha traseira. Nós ficamos muito tristes, pois imaginávamos que ela não teria mais condições de caçar o próprio alimento e por consequência, morreria de inanição. Quantas e quantas vezes eu tive que pegar bichinhos, pernilongos e outros insetos e colocar ao seu lado para que pudesse comer. Madá ficava imóvel, e ficou assim por meses. Algumas vezes até achei que ela estivesse morta, mas que nada, ela estava em completo repouso para regenerar a sua perna. E para nossa alegria, um dia ela saiu pulando de novo, como se nada tivesse acontecido. A vida é muito louca, nos pegamos aprendendo até com um anfíbio. Às vezes temos que nos colocar em completo repouso, estático, quieto no nosso canto, refletindo qual a melhor solução a ser tomada. E a Madá nos ensinou que temos que nos regenerar, reciclar, renovar e seguir adiante. Mas como disse, o tempo passa e passou para a Madalena, ontem a tarde ela resolveu dar um mergulho no lago. Vai ver que era o seu sonho. Vai ver que se apaixonou pela Carpa Ronaldo, vai ver que pensou que fosse também um peixe. Ou sei lá o que ela pensou, mas nós a encontramos dentro do lago, estática, da mesma forma que fazia quando sua perna estava quebrada. Eu como não sou expert em anfíbio, posso até ser em perereca, mas não manjo nada do anfíbio da família Hylidae, eu percebi que a Madalena tinha morrido. Ainda na dúvida, afinal ela era danada para nos enganar e fingir de morta, nós a deixamos em repouso a noite toda no seu cantinho preferido. Mas hoje cedo tivemos a certeza que ela morreu. Não sei se afogada, se de velhice, se de amor pela carpa. Só sei que ficamos muito tristes e a mim restou o papel de enterrá-la com honras da casa, debaixo da chuva, ao lado de um belo exemplar de Samambaia Açu. Pode até parecer estranho, mas a Mada vai deixar saudade, afinal foram quase dois anos de convívio, aprendizado e respeito.